Apesar da força do design, aindalhe devemos uma cara mais brasileira

 
O tema da versão anterior do Gestão Hoje (a onipresença do design na nossa vida cotidiana), suscitou vários comentários de leitores, dentre os quais destaca-se, por oportuno ao aprofundamento da questão, o feito por Marco Antônio Vieira Souto, consultor em comunicação:

“A grande maioria do ‘design de produto’ que nos rodeia é de autoria internacional. São raros os exemplos de empresas nacionais que investem na contratação de designers para desenvolvimento de peças próprias.”

Marco Antonio Vieira Souto, Rio de Janeiro, 15.07.2003

De fato, na esteira da globalização econômica presenciamos uma espécie de globalização “estética” que nos disponibiliza um design vindo de outros países, sobretudo dos EUA, incorporados aos produtos que, de forma real e/ou virtual, importamos.
Se, por um lado, essa atitude denota acomodação, por outro, pensando com mais cuidado, deixa exposta uma espécie de complexo de inferioridade, como se o que vem de fora, principalmente dos EUA, fosse melhor do que é feito aqui. Domenico De Masi, o sociólogo italiano que trata do tema e, em 2002, assessorou o Sebrae na elaboração da pesquisa “Cara Brasileira”, é bem direto em relação ao tema:

“O Brasil pode ser atrasado do lado econômico, mas não culturalmente. Os Estados Unidos não têm literatura, música, filosofia ou antropologia melhores que as brasileiras.”

Domenico De Masi, Gazeta Mercantil, 02.06.2003

E são, justamente, esses aspectos culturais, que no Brasil apresentam-se absolutamente originais, a fonte mais propícia que pode existir para um design de qualidade.

“Sensualidade, receptividade, saudade, alegria, cor, musicalidade são valores importantes para a vida humana e o Brasil tem abundância destes valores que os países industrializados como os Estados Unidos infelizmente perderam.”

Domenico De Masi

Com esses requisitos importantes e abundantes, tiramos deles muito menos partido do que poderíamos, embora, a bem da verdade, devamos reconhecer que a coisa já foi pior.
Hoje, já temos uma capacidade instalada considerável, em termos de profissionais do design, bem como uma produção de boa qualidade, ainda que insuficiente.
No mundo globalizado onde impera a poderosa influência do design, temos condições e precisamos nos posicionar como produtores e criadores originais em muitos campos como já fazemos, por exemplo, na moda, na propaganda, no mobiliário, na arquitetura. Com a consciência sempre presente de que a dimensão estética é uma das dimensões relevantes do desenvolvimento, como muito bem registra o nosso grande economista e pensador Celso Furtado:

“… estudar o desenvolvimento é estudar esses três vetores: o avanço dos valores técnicos, éticos e estéticos…”

Celso Furtado, revista Reportagem, outubro/1999

Técnica, ética e estética essas que devemos conformar com nossa própria dimensão, sem sentimentos de inferioridade mas, pelo contrário, com a certeza de que temos reserva suficiente para dar-lhes uma cara própria, uma cara mais brasileira.
 
Registro
O Gestão Hoje agradece aos leitores que entraram em contato parabenizando pelo novo design do informativo.
E, por oportuno, registra, em razão de não tê-lo feito no número anterior, que a criação e a produção da nova versão e-mail, assim como o site é, também, da Cartello.